Maquiavelo y el pseudo-profetismo (fragmento traducido)

olavo-de-carvalhoFragmento de Maquiavel, ou a Confusão Demoníaca (2011), libro de Olavo de Carvalho, filósofo y escritor brasileño.

Claramente, la concepción maquiávelica de gobierno, con la profecía de la venida del Príncipe-reformador, estaba lista y acabada en el instante mismo en que su autor creó, de manera retroactiva, una interpretación global de la Historia para justificarla. Su interpretación del pasado es pre-moldeada por su visión anticipada del futuro. Esa curiosa inversión de la estructura del tiempo se repite, casi que invariablemente, en todos los pensadores que marcan el ciclo moderno: Hobbes, Locke, Kant, Hegel, Augusto Comte, Karl Marx e incluso el mismo Nietzsche. Así, como si nada, cada uno de ellos cree haber vislumbrado el futuro y lo toma como premisa para explicar el pasado. Es un fenómeno al que llamo pseudo-profetismo, una de las características estructurales del pensamiento moderno, y particularmente de la mentalidad revolucionaria, en el sentido explícito que le doy a ese término.

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Utopia de um Homem que está Cansado

Por Jorge Luis Borges. Tradução do espanhol para o português por Renan Felipe dos Santos.

«Chamou-a utopia, voz grega cujo significado é não existe tal lugar.»
-Quevedo-

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Não há dois cerros iguais, mas em qualquer lugar da terra a planície é só uma e a mesma. Eu ia por um caminho da planície. Perguntei-me sem muita curiosidade se estava em Oklahoma ou Texas, ou na região que os literatos chamam o pampa. Nem à direita nem à esquerda vi um alambrado. Como outras vezes, repeti devagar estas linhas, de Emilio Oribe:

“Em meio à pânica* planície interminável.
E próximo ao Brasil,
que vai crescendo e se agrandando”

O caminho era desparelho. Começou a cair a chuva. A uns duzentos ou trezentos metros vi a luz de uma casa. Era baixa e retangular e cercada de árvores. Abriu-me a porta um homem tão alto que quase me deu medo. Estava vestido de cinza. Senti que esperava alguém. Não havia fechadura na porta. Entramos em uma peça grande com as paredes de madeira. Pendia do forro uma lâmpada de luz amarelenta. Estranhei a mesa, por alguma razão. Na mesa havia uma clepsidra, a primeira que vi, além de uma gravura em aço. O homem me indicou uma das cadeiras.

Ensaiei diversos idiomas e não nos entendemos. Quando ele falou, fê-lo em latim. Juntei minhas já remotas memórias de secundarista e me preparei para o diálogo.

-Pela roupa -disse-me-, vejo que chegas de outro século. A diversidade das línguas favorecia a diversidade dos povos e das guerras; a terra regressou ao latim. Há quem tema que volte a se degenerar em francês, em limosino ou em papiamento, mas o risco não é imediato. Aliás, nem o que foi nem o que será me interessam.

Não disse nada. O homem acrescentou:
-Se não te desagrada ver outro comendo, queres me acompanhar?

Notei que ele percebia minha inquietação e disse que sim.

Atravessamos um corredor com portas laterais, que dava para uma pequena cozinha onde tudo era de metal. Voltamos com a janta em uma bandeja: tigelas com flocos de milho, um cacho de uvas, uma fruta desconhecida cujo sabor me lembrou o do figo, e uma grande jarra de água. Acho que não havia pão. Os traços de meu anfitrião eram agudos e havia algo de singular em seus olhos. Não esquecerei este rosto severo e pálido que não voltarei a ver. Não gesticulava ao falar.

Travava-me a obrigação do latim, mas finalmente lhe disse:

-Não te assombra minha súbita aparição?

-Não -respondeu-, tais visitas ocorrem de século em século. Não duram muito; o mais tardar estarás amanhã em tua casa.

A certeza de sua voz me bastou. Julguei prudente me apresentar:

-Sou Eudoro Acevedo. Nasci em 1897, na cidade de Buenos Aires. Tenho já setenta anos. Sou professor de literatura inglesa e americana e escritor de contos fantásticos.

-Lembro de ter lido sem desagrado -respondeu- dois contos fantásticos. As Viagens do Capitão Lemuel Gulliver, que muitos consideram verídicas, e a Suma Teológica. Mas não falemos de fatos. Ninguém mais se importa com os fatos. São meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio. Nas escolas nos ensinam a dúvida e a arte do esquecimento. Sobretudo o esquecimento do pessoal e local. Vivemos no tempo, que é sucessivo, mas tratamos de viver sub specie aeternitatis**. Do passado conservamos alguns nomes, que a linguagem tende a esquecer. Eludimos as precisões inúteis. Não há cronologia nem história. Não há estatísticas, tampouco. Disseste que te chamas Eudoro; não posso te dizer como me chamo, porque me chamam alguém.

-E como se chamava teu pai?

-Não se chamava.

Em uma das paredes vi uma estante. Abri um volume ao acaso; as letras eram claras e indecifráveis e traçadas à mão. Suas linhas angulares me recordaram o alfabeto rúnico, que, no entanto, só se empregou para a escrita epigráfica. Pensei que os homens do porvir não só eram mais altos senão mais destros. Instintivamente olhei os dedos longos e finos do homem.

Este me disse:

-Agora verás algo que nunca viste.

Estendeu-me com cuidado um exemplar da Utopia de Morus, impresso em Basiléia no ano de 1518 e do qual faltavam folhas e gravuras.

Não sem presunção respondi:

-É um livro impresso. Em casa há mais de dois mil, ainda que não tão antigos nem tão preciosos.

Li em voz alta o título.

O outro riu.

-Ninguém pode ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não devo ter passado de uma meia dezena. Além disso, não importa ler, senão reler. A imprensa, agora abolida, foi um dos piores males do homem, pois tendia a multiplicar vertiginosamente textos desnecessários.

-No meu curioso passado -respondi-, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã ocorrem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém sabia a história prévia destes entes platônicos, mas sim os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes enviavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão própria do gênero.

Tudo isso era lido para o esquecimento, porque em poucas horas seria apagado por outras trivialidades. De todas as funções, a do político era sem dúvida a mais pública. Um embaixador ou um ministro era um tipo de aleijado que era preciso trasladar em veículos grandes e barulhentos, cercado de ciclistas e granadeiros e aguardado por ansiosos fotógrafos. Parece que lhes cortaram os pés, dizia minha mãe. As imagens e a letra impressa eram mais reais que as coisas. Só o publicado era verdadeiro. Esse est percipi (ser é ser percebido) era o princípio, o meio e o fim de nosso singular conceito de mundo. No passado que me coube, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia seu próprio fabricante. Também eram freqüentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse de dinheiro não trazia maior felicidade nem maior quietude.

-Dinheiro? -repetiu-. Já não há quem padeça de pobreza, que seria insuportável, nem de riqueza, que seria a forma mais incômoda de vulgaridade. Cada qual exerce um ofício.

-Como os rabinos -disse-lhe.

Pareceu não entender e prosseguiu.

-Tampouco há cidades. A julgar pelas ruínas de Bahía Blanca, que tive a curiosidade de explorar, não perdemos muito. Já que não há posses, não há heranças. Quando o homem amadurece aos cem anos, está pronto para enfrentar a si mesmo e sua solidão. Já engendrou um filho.

-Um filho? -perguntei.

-Sim. Um só. Não convém fomentar o gênero humano. Há quem pense que é um órgão da divindade para ter consciência do universo, mas ninguém sabe ao certo se tal divindade existe. Creio que agora se discutem as vantagens e desvantagens de um suicídio gradual ou simultâneo de todos os homens do mundo. Mas voltemos ao assunto.

Assenti.

-Aos cem anos, o indivíduo pode prescindir do amor e da amizade. Os males e a morte involuntária não o ameaçam. Exerce alguma das artes, a filosofia, a matemática ou joga um xadrez solitário. Quando quer, suicida-se. Dono o homem da sua vida, também o é da sua morte.

-Trata-se de uma citação? -perguntei.

-Certamente. Não nos resta mais que citações. A língua é um sistema de citações.

-E a grande aventura de meu tempo, as viagens espaciais? -disse-lhe.

-Há séculos renunciamos a estes traslados, que foram certamente admiráveis. Nunca pudemos fugir do aqui e agora.

Com um sorriso acrescentou:

-Afinal, toda viagem é espacial. Ir de um planeta a outro é como ir à granja em frente. Quando o senhor entrou neste quarto, estava fazendo uma viagem espacial.

-É verdade -respondi. Também se falava de substâncias químicas e de animais zoológicos.
O homem agora me dava as costas e olhava pelas vidraças. Lá fora, a planície estava branca de silenciosa neve e de lua.

Atrevi-me a perguntar:

-Ainda há museus e bibliotecas?

-Não. Queremos esquecer o passado, exceto para a composição de elegias. Não há comemorações nem centenários nem efígies de homens mortos. Cada qual deve produzir por sua própria conta as ciências e as artes de que necessita.

-Neste caso, cada qual deve ser seu próprio Bernard Shaw, seu próprio Jesus Cristo e seu próprio Arquimedes.

Assentiu sem uma palavra. Inquiri:

-O que aconteceu com os governos?

-Segundo a tradição, foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham tarifas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta os acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e suas efígies. Os políticos tiveram que buscar trabalhos honestos; alguns foram bons comediantes ou bons curandeiros. A realidade sem dúvida deve ter sido mais complexa que este resumo.

Mudou de tom e disse:

-Construí esta casa, que é igual a todas as outras. Fiz estes móveis e estes utensílios. Trabalhei o campo que outros, cuja cara não vi, trabalharão melhor que eu. Posso te mostrar algumas coisas.

Segui-o a uma peça contíngua. Acendeu uma lâmpada, que também pendia do forro. Em um canto, vi uma harpa de poucas cordas. Nas paredes havia telas retangulares onde predominavam os tons da cor amarela. Não pareciam obra de uma mesma mão.

-Esta é minha obra -declarou.

Examinei as telas e me detive diante da menor delas, que figurava ou sugeria um pôr-do-sol e que encerrava algo infinito.

-Se te agradou, podes levá-la, como uma lembrança de um amigo futuro -disse com palavra tranquila. Agradeci, mas outras telas me inquietaram. Não direi que estavam em branco, mas quase em branco.

-Estão pintadas com cores que teus olhos antigos não podem ver.

As delicadas mãos tocaram as cordas da harpa e mal pude escutar um que outro som. Foi então que se ouviram as batidas.

Uma mulher alta e três ou quatro homens entraram na casa. Poderia dizer que eram irmãos ou que o tempo os havia igualado. Meu anfitrião falou primeiro com a mulher.

-Sabia que esta noite não faltarias. Tens visto a Nils?

-Às vezes. Continua sempre entregue à pintura.

-Esperemos que com melhor fortuna que seu pai.

Manuscritos, quadros, móveis, utensílios; não deixamos nada na casa.

A mulher trabalhou tal como os homens. Envergonhei-me de minha fraqueza, que quase não me permitia ajudá-los. Ninguém fechou a porta e saímos, carregados com as coisas. Notei que o teto era de duas águas. Depois de quinze minutos caminhando, dobramos à esquerda. Ao fundo divisei um tipo de torre, coroada por uma cúpula.

-É o crematório -alguém disse-. Dentro está a câmara letal. Dizem que foi inventada por um filantropo cujo nome, creio, era Adolf Hitler.

O guardião, cuja estatura não me assombrou, abriu o portão.

Meu hóspede sussurou umas palavras. Antes de entrar no recinto se despediu com um gesto.

-A neve continuará-anunciou a mulher.

Em meu escritório da rua México guardo a tela que alguém pintará, daqui a milhares de anos, com materiais hoje dispersos pelo planeta.


*Nota do Tradutor: pânico se refere a Pan, divindade grega dos bosques e da vida selvagem. Neste caso, o adjetivo pânico não diz respeito ao pavor, mas à característica rústica e cheia de vida das planícies que ligam o Uruguai ao Rio Grande do Sul, os pampas. O autor das linhas, Emilio Oribe, é um poeta, ensaísta e filósofo uruguaio.

**Do latim, “sob o aspecto da eternidade”, ver as coisas desde uma perspectiva atemporal, objetiva, daquilo que é universal e eternamente verdadeiro.

O Estado Docente (trecho traduzido)

Trecho extraído de O Estado Docente (1884), artigo de Miguel Antonio Caro, presidente conservador colombiano de 1892 a 1898.

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O Estado começa fazendo-se definidor: este é o primeiro passo no caminho do abuso. Logo se faz professor, ensina o que define e dá aulas por sua própria conta. Dispondo dos grandes recursos formados com as contribuições públicas, oferece aulas gratuitas, mata a concorrência e se ergue com o monopólio do ensino. Não satisfeito com isso, decreta como obrigatória a sua instrução. O Estado, armado com a espada da lei, impõe suas opiniões desautorizadas e caprichosas como o maometano sua doutrina com o fio do alfange. Tal é a última etapa desta usurpação intelectual que vemos se desenvolver no Estado moderno, como gigantesca ameaça à toda honrada liberdade e que mais cresce à medida que mais se seculariza o próprio Estado e mais independência este ostenta.

O Reacionário Autêntico

Nicolás Gómez Dávila in Revista de la Universidad de Antioquia, Nº. 240 (Abril–Junho de 1995), p. 16-19. Tradução do espanhol para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos.

A existência do reacionário autêntico escandaliza o progressista. Sua presença vagamente o incomoda. Ante a atitude reacionária, o progressista sente um leve menosprezo, acompanhado de surpresa e desassossego. Para aplacar seus receios, o progressista costuma interpretar esta atitude intempestiva e chocante como dissimulação de interesses ou sintoma de estultícia; mas só o jornalista, o político e o tolo não se embaraçam, secretamente, ante a tenacidade com que as mais altas inteligências do Ocidente, já há cento e cinquenta anos, acumulam objeções contra o mundo moderno. Um desdém complacente não parece, de fato, a contestação adequada a uma atitude onde se irmana um Goethe a um Dostoievski. Mas se todas as teses do reacionário surpreendem o progressista, a mera postura reacionária o desconcerta.

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Cristo no Deserto, de Ivan Kramskoy.

Que o reacionário proteste contra a sociedade progressista, a julgue e a condene, mas que se resigne, entretanto, ao seu atual monopólio da história, parece-lhe uma posição extravagante. O progressista radical, por uma parte, não compreende como o reacionário condena um fato que admite, e o progressista liberal, por outra, não entende como admite um fato que condena. O primeiro lhe exige que renuncie a condenar se reconhece que o fato é necessário, e o segundo que não se limite a abster-se se confessa que o fato é reprovável. Aquele o incita a render-se, este a agir. Ambos censuram sua passiva lealdade à derrota. O progressista radical e o progressista liberal, de fato, repreendem o reacionário de maneira distinta, porque um sustenta que a necessidade é razão enquanto o outro afirma que a razão é liberdade. Uma visão distinta da história condiciona suas críticas. Para o progressista radical, necessidade e razão são sinônimos: a razão é a substância da necessidade, e a necessidade é o processo em que a razão se realiza. Ambas são uma só torrente de existências.

A história do progressista radical não é a soma do meramente acontecido, mas uma epifania da razão. Mesmo quando prega que o conflito é o mecanismo vetor da história, toda superação resulta de um ato necessário, e a série descontínua dos atos é a senda que traçam, ao avançar sobre a carne vencida, os passos da razão indeclinável. O progressista radical só adere à idéia que a história cauciona, porque o perfil da necessidade revela os traços da razão nascente. Do próprio curso da história emerge a norma ideal que o nimba. Convencido da racionalidade da história, o progressista radical incumbe a si mesmo o dever de colaborar com o seu sucesso. A raiz da obrigação ética jaz, para ele, na nossa possibilidade de impulsionar a história aos seus próprios fins. O progressista radical se inclina sobre o fato iminente para favorecer sua vinda, porque ao atuar no sentido da história a razão individual coincide com a razão do mundo. Para o progressista radical, pois, condenar a história não é só uma empresa vã, mas também uma empresa estúpida. Empresa vã porque a história é necessidade; empresa estúpida porque a história é razão.

O progressista liberal, por outro lado, instala-se na pura contingência. A liberdade, para ele, é substância da razão, e a história é o processo em que o homem realiza sua liberdade. A história do progressista liberal não é um processo necessário, mas a ascensão da liberdade humana à plena posse de si mesma. O homem forja sua história impondo à natureza a decisão de sua livre vontade. Se o ódio e a cobiça arrastam o homem entre labirintos sangrentos, a luta se realiza entre liberdades pervertidas e liberdades retas. A necessidade é, meramente, o peso opaco de nossa própria inércia, e o progressista liberal estima que a boa vontade pode resgatar o homem, em qualquer instante, das servidões que o oprimem.

O progressista liberal exige que a história se comporte de acordo com o que sua razão postula, posto que a liberdade a cria; e como sua liberdade também engendra as causas que defende, nenhum fato pode primar contra o direito que a liberdade estabelece. O ato revolucionário condensa a obrigação ética do progressista liberal, porque romper o que a estorva é o ato essencial da liberdade que se realiza. A história é uma matéria inerte moldada por uma vontade soberana. Para o progressista liberal, portanto, resignar-se à história é uma atitude imoral e estúpida. Estúpida porque a história é liberdade; imoral porque a liberdade é nossa essência.

O reacionário, no entanto, é o estulto que assume a vaidade de condenar a história, e a imoralidade de resignar a ela. Progressismo radical e progressismo liberal elaboram visões parciais. A história não é necessidade, nem liberdade, senão sua integração flexível. A história, de fato, não é um monstro divino. A cortina de poeira humana não parece levantar-se como sob o hálito de uma besta sagrada; as épocas não parecem ordenar-se como estágios na embriogenia de um animal metafísico; os fatos não se imbricam uns aos outros como escamas de um peixe celeste. Mas se a história não é um sistema abstrato que germina sob leis implacáveis, tampouco é o dócil alimento da loucura humana. A gana e vontade gratuita do homem não são seu reitor supremo. Os fatos não se moldam, como uma pasta viscosa e plástica, entre dedos afanados.

De fato, a história não resulta de uma necessidade impessoal, nem de um capricho humano, mas de uma dialética da vontade onde a opção livre se desenvolve em conseqüências necessárias. A história não se desenvolve como um processo dialético único e autônomo, que prolonga em dialética vital a dialética da natureza inanimada, senão em um pluralismo de processos dialéticos, numerosos como os atos livres e atados à diversidade de seus solos carnais. Se a liberdade é o ato criador da história, se cada ato livre engendra uma história nova, o livre ato criador se projeta sobre o mundo em um processo irrevogável. A liberdade secreta a história como uma aranha metafísica a geometria de sua teia. A liberdade, de fato, aliena-se no próprio gesto em que se assume, porque o ato livre possui uma estrutura coerente, uma organização interna, uma proliferação normal de consequências. O ato se desdobra, dilata e expande de acordo com seu caráter íntimo e com sua natureza inteligível. Cada ato submete uma parte do mundo a uma configuração específica.

A história, portanto, é uma liga de liberdades endurecidas em processos dialéticos. Quanto mais fundo seja o estrato de onde brota o ato livre, mais variadas são as zonas de atividade que o processo determina, e maior sua duração. O ato superficial e periférico se esgota em episódios biográficos, enquanto o ato central e profundo pode criar uma época para uma sociedade inteira. A história se articula, assim, em instantes e em épocas: em atos livres e em processos dialéticos. Os instantes são sua alma fugitiva, as épocas seu corpo tangível. As épocas se estendem como trechos entre dois instantes: seu instante germinal, e o instante onde clausura o ato incoativo de uma nova vida. Sobre dobradiças de liberdade giram portas de bronze. As épocas têm uma duração irrevogável: o encontro com processos surgidos desde uma maior profundidade pode interrompê-las, a inércia da vontade pode prolongá-las. A conversão é possível, a passividade familiar. A história é uma necessidade que a liberdade engendra e a casualidade destroça.

As épocas coletivas são o resultado de uma comunhão ativa em uma decisão idêntica, ou da contaminação passiva de vontades inertes; mas enquanto dura o processo dialético para o qual as liberdades se inclinaram, a liberdade do inconforme se retorce em uma ineficaz rebeldia. A liberdade social não é opção permanente, mas brandura repentina na conjuntura das coisas. O exercício da liberdade supõe uma inteligência sensível à história, porque diante da liberdade alienada de uma sociedade inteira o homem só pode ouvir o ruído da necessidade que se quebra. Todo propósito se frustra se não se insere nas fendas cardeais de uma vida.

Frente à história a obrigação ética de atuar surge somente quando a consciência aprova a finalidade que momentaneamente impera, ou quando as circunstâncias culminam em uma conjuntura propícia à nossa liberdade. O homem que o destino coloca em uma época sem fim previsível, e cujo caráter fere os mais profundos nervos de seu ser, não pode sacrificar, atropeladamente, sua repugnância a seus brios, nem sua inteligência à sua vaidade. O gesto espetacular e vão merece o aplauso público, e o desdém daqueles a quem a meditação reclama. Nas paragens sombrias da história, o homem deve se resignar a minar com paciência as soberbas humanas. O homem pode, assim, condenar a necessidade sem se contradizer, mesmo que não possa agir senão quando a necessidade se derruba. Se o reacionário admite a atual esterilidade dos seus princípios e a inutilidade das suas censuras, não é porque lhe baste o espetáculo das confusões humanas. O reacionário não se abstém de agir porque o risco o espanta, mas porque estima que atualmente as forças sociais se inclinam rapidamente para uma meta que desdenha. Dentro do atual processo, as forças sociais cavaram seu curso na rocha, e nada mudará seu rumo enquanto não deságüem no raso de uma planície incerta. A gesticulação dos náufragos só faz fluir seus corpos paralelamente à outra margem. Mas se o reacionário é impotente em nosso tempo, sua condição o obriga a testemunhar seu asco. A liberdade, para o reacionário, é submissão a um mandato.

De fato, ainda que não seja nem necessidade, nem capricho, a história, para o reacionário, não é, entretanto, dialética da vontade imanente, mas uma aventura temporal entre o homem e o que lhe transcende. Suas obras são traços, sobre a areia revolvida, do corpo do homem e do corpo do anjo. A história do reacionário é um farrapo, rasgado pela liberdade do homem, que tremula ao sopro do destino. O reacionário não pode se calar porque sua liberdade não é meramente o asilo onde o homem escapa ao tráfego que o aturde, e onde se refugia para assumir a si mesmo. No ato livre o reacionário não toma, tão somente, posse de sua essência. A liberdade não é uma possibilidade abstrata de escolher entre bens conhecidos, mas a concreta condição dentro da qual nos é outorgada a posse de novos bens. A liberdade não é instância que decide pleitos entre instintos, senão a montanha desde a qual o homem contempla a ascensão de novas estrelas, entre o pó luminoso do céu estrelado. A liberdade coloca o homem entre proibições que não são físicas e imperativos que não são vitais. O instante livre dissipa a vã claridade do dia, para que se erga, sobre o horizonte da alma, o imóvel universo que desliza suas luzes transeuntes sobre o tremor da nossa carne. Se o progressista se inclina ao futuro, e o conservador ao passado, o reacionário não mede seus desejos com a história de ontem ou com a história de amanhã. O reacionário não clama o que há de trazer a próxima alvorada, nem se aferra às últimas sombras da noite. Sua morada se levanta neste espaço luminoso onde as essências o interpelam com suas presenças imortais. O reacionário escapa à servidão da história, porque persegue na selva humana a pegada de passos divinos. Os homens e os fatos são, para o reacionário, uma carne servil e mortal que alentam sopros tramontanos. Ser reacionário é defender causas que não giram sobre o tabuleiro da história, causas que não importa perder. Ser reacionário é saber que apenas descobrimos aquilo que cremos inventar; é admitir que nossa imaginação não cria, senão desnuda corpos brandos. Ser reacionário não é abraçar determinadas causas, nem advogar por determinados fins, mas submeter nossa vontade à necessidade que não constrange, render nossa liberdade à exigência que não compele; é encontrar as evidências que nos guiam adormecidos à margem de lagoas milenares. O reacionário não é o sonhador nostálgico de passados abolidos, é o caçador de sombras sagradas sobre as colinas eternas.