Cómo contar palabras en PowerPoint 2013

Tiempo estimado de lectura: 1 minuto.

contar palabras ppt 2013-portada

Si trabajas con traducción, revisión o creación de contenido y calculas tus precios por palabra, o si por alguna razón necesitas trabajar respetando un límite de palabras, es importante poder contarlas. Word nos ofrece un conteo de palabras en su barra de estado, pero PowerPoint desafortunadamente no ofrece esta solución de manera tan práctica.

En este artículo te explicaré, en 4 pasos sencillos, como verificar el conteo de palabras en una presentación de diapositivas, utilizando el PowerPoint versión 2013:

1. Haz clic sobre “ARCHIVO”.contar palabras ppt 2013-1

2. Ve a “Información”.
contar palabras ppt 2013-2
3. En la parte inferior derecha de la pantalla, haz clic sobre “Mostrar todas las propiedades”.
contar palabras ppt 2013-3
4. Aparece un listado de propiedades. El conteo de palabras es la cuarta propiedad del listado.
contar palabras ppt 2013-4

 

 

 

Espero que este pequeño instructivo te haya ayudado.

¡Gracias por tu visita! 🙂

Anúncios

Origem Histórica do Direito da Guerra (trecho traduzido)

Tradução do primeiro capítulo de O Crime da Guerra (1870), livro de Juan Bautista Alberdi, jurista, economista, político e escritor argentino. Um dos grandes expoentes do pensamento liberal na América do Sul, foi o autor intelectual da Constituição Argentina de 1853.

rs-juan-bautista-alberdiO crime da guerra. Esta expressão só nos surpreende quando a comparamos ao nosso hábito de evocar outro conceito, este sim realmente incompreensível e monstruoso: o direito da guerra, ou seja, o direito do homicídio, do roubo, do incêndio, da devastação na maior escala imaginável; porque isto é a guerra, e se não é isto, não é guerra. Estes atos são crimes segundo as leis de todas as nções do mundo. A guerra os sanciona e converte em atos honestos e legítimos, de modo que a guerra é efetivamente o direito ao crime, um contrassenso espantoso e sacrílego, que é um sarcasmo contra a civilização. A história explica: o direito das gentes romano[1] era o direito romano para o estrangeiro. E como estrangeiro para o romano era sinônimo de bárbaro, inimigo, todo o seu direito externo era equivalente ao direito da guerra. O ato que era considerado crime de um romano para outro, não o era de um romano para um estrangeiro.

Era natural que para eles houvesse dois direitos e duas justiças, porque os homens não eram todos irmãos, nem todos iguais. Mais tarde veio a moral cristã, mas permaneceram as duas justiças do direito romano convivendo ao seu lado, como um hábito mais forte que a lei.

Normalmente cremos que não tomamos dos romanos mais do que o seu direito civil: certamente era o melhor da sua legislação, porque era a lei com a qual tratavam a si mesmos: a caridade em casa. Mas do que tinham de pior foi de onde mais tomamos, o seu direito público externo e interno: o despotismo e a guerra, ou seja a guerra e as duas fases. Tomamos deles a guerra, ou seja, o crime como meio legal de discussão e sobretudo de engrandecimento; a guerra, ou seja, o crime como manancial da riqueza; e a guerra, ou seja, sempre o crime como meio de governo interno. Da guerra nasce o governo da espada, o governo militar, o governo do exército que é o governo da força em substituição da justiça e do direito como princípio de autoridade. Não podendo fazer forte o que é justo, fizemos justo o que é forte (Pascal).

Maquiavel[2] veio após a Renascença[3] das letras romanas e gregas, e o que chamamos maquiavelismo não é senão a restauração do direito público romano. Não se dirá que Maquiavel teve outra fonte doutrinária que não a história romana, a qual conhecia profundamente. A fraude na política, o dolo no governo, o engano nas relações entre os Estados, não são invenção do republicano de Florença, quem, pelo contrário, amava a liberdade e serviu a ela sob os Médici[4] nos tempos floridos da Itália moderna. Todas as doutrinas malsãs atribuídas à invenção de Maquiavel já eram praticadas pelos romanos. Montesquieu[5] nos demonstrou o segredo funesto do seu enaltecimento. Uma grandeza nascida do esquecimento do direito devia necessariamente naufragar no abismo desde o berço, e assim aconteceu com a educação política do gênero humano. A educação se faz, sem dúvidas, mas com lentidão. Ainda somos romanos em nossa maneira de entender e praticar as máximas do direito público e do governo dos povos.

Para ficar só em um exemplo estrepitoso e atual, vejamos a Prússia de 1866. Ela demonstrou ser o país do direito romano por excelência, não só como ciência e estudo, mas como prática. Niebuhr[7] e Savigny[8] não podiam senão produzir um Bismarck[9], digno de um assento no Senado Romano dos tempos em que Cartago, Egito e Grécia eram vistos como matéria bruta para a constituição do edifício romano. O esquecimento franco e candoroso do direito, a conquista inconsciente por assim dizer, o despojo e a anexação violenta, praticados como meios legais de engrandecimento, a necessidade de ser grande e poderoso por meio do luxo, invocada como razão legítima para se apoderar do fraco e devorá-lo, são simples máximas do direito das gentes romano, que considerou a guerra como uma indústria tão legítima como são para nós hoje ocomércio, a agricultura, o trabalho industrial. Não é mais que um vestígio desta política aquela que a Europa de hoje admira, surpreendida e sem razão, no conde de Bismarck.

Só assim se explica a repulsa instintiva contra o direito público romano dos talentos inspiradores da democracia cristã e moderna, como Tocqueville[10], Laboulaye[11], Acollas[12], Chevalier[13], Coquerel[14], etc. A democracia não se engana em sua aversão instintiva ao cesarismo. É a antipatia ao direito da força como base de autoridade; da razão ao capricho como regra de governo. A espada da justiça não é a espada da guerra. A justiça, longe de ser beligerante, é alheia ao interesse e é neutra no debate que se submete ao seu juízo. A guerra deixa de ser guerra se não é um duelo entre dois litigantes armados que fazem justiça um ao outro pela força da espada. A espada da guerra é a espada da parte litigante, ou seja, parcial e necessariamente injusta.


NOTAS:
[1] Ius gentium, o direito romano aplicável aos estrangeiros. Contrapõe-se ao ius civile, o direito romano aplicável aos cidadãos romanos.
[2] Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi um historiador, diplomata e escritor florentino. É reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna. Sua obra mais conhecida é O Príncipe (1532), publicada postumamente.
[3] Renascença foi um movimento cultural que floresceu na Europa Ocidental do século XV ao XVI. O termo também é usado para descrever este período histórico, caracterizado pelo resgate de formas artísticas da Antigüidade Clássica e os descobrimentos europeus na Ásia, África e América.
[4] A Casa dos Médici foi uma poderosa dinastia italiana de origem toscana que dominou a vida pública de Florença do século XIV até meados do século XVIII.
[5] Montesquieu (1689-1755) foi um advogado, escritor e filósofo político francês do período iluminista. É mais conhecido pela sua teoria da divisão de poderes, implementada hoje em diversas constituições ao redor do mundo e explícita na sua principal obra, O Espírito das Leis (1748).
[6] O Reino da Prússia foi o Estado monárquico alemão proclamado em 1701 que durou até 1918. Era conhecido por ser altamente industrializado, militarista e autoritário.Era uma das grandes potências ocidentais até sua derrota na Primeira Guerra Mundial.
[7] Barthold Georg Niebuhr (1776-1831) foi um diplomada e historiador alemão.
[8] Friedrich Carl von Savigny (1779-1861) foi um jurista e historiador alemão. Era uma amigo e colaborador pessoal de Niebuhr.
[9] Otto von Bismarck (1815-1898) foi um estadista prussiano, conhecido pela vitória na Guerra Franco-Prussiana que culminou com a unificação dos Estados alemães. Seu governo era extremamente autoritário e repressor, perseguindo sobretudo católicos e social-democratas.
[10] Alexis de Tocqueville (1805-1859) foi um diplomata, historiador e cientista político francês. Suas obras mais famosas são Democracia na América (1840) e O Antigo Regime e a Revolução (1856). Ambas as obras analisam a melhoria dos padrões de vida e das condições sociais dos indivíduos no mundo ocidental. Suas obras são consideradas pioneiras em matéria de sociologia e ciência política.
[11] Édouard René de Laboulaye (1811-1883) foi um jurista, poeta e abolicionista francês. Foi o idealizador da Estátua da Liberdade, obra realizada pelo escultor seu amigo Frédéric Auguste Bartholdi.
[12] Émile Acollas (1826-1891) foi um professor de jurisprudência francês, crítico da teoria rousseauniana do direito.
[13] Michel Chevalier (1806-1879) foi um engenheiro, estadista e economista francês. Cunhador do termo “América Latina”, defendia a ideia de que os latino-americanos pertenciam à esfera cultural romance e eram portanto aliados naturais da Europa romance frente à Europa teutônica e anglo-saxã.
[14] Não está claro a qual Coquerel se refere Alberdi neste trecho. Contemporâneos à ele, nesta época, havia pelo menos três personalidades importantes na França com este sobrenome:

Athanase-Charles Coquerel (1795-1868), teólogo protestante e deputado da Assembleia Constituinte de 1848 pelo Partido da Ordem (monarquista, liberal-conservador).
Athanase Josué Coquerel (1820-1875), teólogo do protestantismo liberal francês defensor das liberdades religiosas.
Charles Augustin Coquerel (1797-1851), irmão mais velho do anterior, liberal fundador e editor das publicações Annales protestantes, Le Lien e Revue protestante.

El quesuísmo

Tiempo de lectura: menos de 1 minuto.

quesuismo

El “quesuismo” es un fenómeno del idioma español coloquial, incorrecto desde el punto de vista normativo, y que consiste en emplear el pronombre relativo “que” seguido del posesivo “su”, de manera que que el pronombre relativo pierde su función nominal:

El libro que su portada era roja…

En lugar de “que su”, se debe utilizar el adjetivo relativo posesivo cuyo o cuya:

El libro cuya portada era roja…

Sin embargo, la secuencia “que su” no siempre constituye quesuismo, sobretodo si el “que” funciona como conjunción. “Esta es la portada que su amigo diseñó” sería un uso correcto de esta secuencia.

¡Gracias por la visita! 🙂

Utopia de um Homem que está Cansado

Por Jorge Luis Borges. Tradução do espanhol para o português por Renan Felipe dos Santos.

«Chamou-a utopia, voz grega cujo significado é não existe tal lugar.»
-Quevedo-

jorge-luis-borges

 

Não há dois cerros iguais, mas em qualquer lugar da terra a planície é só uma e a mesma. Eu ia por um caminho da planície. Perguntei-me sem muita curiosidade se estava em Oklahoma ou Texas, ou na região que os literatos chamam o pampa. Nem à direita nem à esquerda vi um alambrado. Como outras vezes, repeti devagar estas linhas, de Emilio Oribe:

“Em meio à pânica* planície interminável.
E próximo ao Brasil,
que vai crescendo e se agrandando”

O caminho era desparelho. Começou a cair a chuva. A uns duzentos ou trezentos metros vi a luz de uma casa. Era baixa e retangular e cercada de árvores. Abriu-me a porta um homem tão alto que quase me deu medo. Estava vestido de cinza. Senti que esperava alguém. Não havia fechadura na porta. Entramos em uma peça grande com as paredes de madeira. Pendia do forro uma lâmpada de luz amarelenta. Estranhei a mesa, por alguma razão. Na mesa havia uma clepsidra, a primeira que vi, além de uma gravura em aço. O homem me indicou uma das cadeiras.

Ensaiei diversos idiomas e não nos entendemos. Quando ele falou, fê-lo em latim. Juntei minhas já remotas memórias de secundarista e me preparei para o diálogo.

-Pela roupa -disse-me-, vejo que chegas de outro século. A diversidade das línguas favorecia a diversidade dos povos e das guerras; a terra regressou ao latim. Há quem tema que volte a se degenerar em francês, em limosino ou em papiamento, mas o risco não é imediato. Aliás, nem o que foi nem o que será me interessam.

Não disse nada. O homem acrescentou:
-Se não te desagrada ver outro comendo, queres me acompanhar?

Notei que ele percebia minha inquietação e disse que sim.

Atravessamos um corredor com portas laterais, que dava para uma pequena cozinha onde tudo era de metal. Voltamos com a janta em uma bandeja: tigelas com flocos de milho, um cacho de uvas, uma fruta desconhecida cujo sabor me lembrou o do figo, e uma grande jarra de água. Acho que não havia pão. Os traços de meu anfitrião eram agudos e havia algo de singular em seus olhos. Não esquecerei este rosto severo e pálido que não voltarei a ver. Não gesticulava ao falar.

Travava-me a obrigação do latim, mas finalmente lhe disse:

-Não te assombra minha súbita aparição?

-Não -respondeu-, tais visitas ocorrem de século em século. Não duram muito; o mais tardar estarás amanhã em tua casa.

A certeza de sua voz me bastou. Julguei prudente me apresentar:

-Sou Eudoro Acevedo. Nasci em 1897, na cidade de Buenos Aires. Tenho já setenta anos. Sou professor de literatura inglesa e americana e escritor de contos fantásticos.

-Lembro de ter lido sem desagrado -respondeu- dois contos fantásticos. As Viagens do Capitão Lemuel Gulliver, que muitos consideram verídicas, e a Suma Teológica. Mas não falemos de fatos. Ninguém mais se importa com os fatos. São meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio. Nas escolas nos ensinam a dúvida e a arte do esquecimento. Sobretudo o esquecimento do pessoal e local. Vivemos no tempo, que é sucessivo, mas tratamos de viver sub specie aeternitatis**. Do passado conservamos alguns nomes, que a linguagem tende a esquecer. Eludimos as precisões inúteis. Não há cronologia nem história. Não há estatísticas, tampouco. Disseste que te chamas Eudoro; não posso te dizer como me chamo, porque me chamam alguém.

-E como se chamava teu pai?

-Não se chamava.

Em uma das paredes vi uma estante. Abri um volume ao acaso; as letras eram claras e indecifráveis e traçadas à mão. Suas linhas angulares me recordaram o alfabeto rúnico, que, no entanto, só se empregou para a escrita epigráfica. Pensei que os homens do porvir não só eram mais altos senão mais destros. Instintivamente olhei os dedos longos e finos do homem.

Este me disse:

-Agora verás algo que nunca viste.

Estendeu-me com cuidado um exemplar da Utopia de Morus, impresso em Basiléia no ano de 1518 e do qual faltavam folhas e gravuras.

Não sem presunção respondi:

-É um livro impresso. Em casa há mais de dois mil, ainda que não tão antigos nem tão preciosos.

Li em voz alta o título.

O outro riu.

-Ninguém pode ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não devo ter passado de uma meia dezena. Além disso, não importa ler, senão reler. A imprensa, agora abolida, foi um dos piores males do homem, pois tendia a multiplicar vertiginosamente textos desnecessários.

-No meu curioso passado -respondi-, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã ocorrem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém sabia a história prévia destes entes platônicos, mas sim os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes enviavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão própria do gênero.

Tudo isso era lido para o esquecimento, porque em poucas horas seria apagado por outras trivialidades. De todas as funções, a do político era sem dúvida a mais pública. Um embaixador ou um ministro era um tipo de aleijado que era preciso trasladar em veículos grandes e barulhentos, cercado de ciclistas e granadeiros e aguardado por ansiosos fotógrafos. Parece que lhes cortaram os pés, dizia minha mãe. As imagens e a letra impressa eram mais reais que as coisas. Só o publicado era verdadeiro. Esse est percipi (ser é ser percebido) era o princípio, o meio e o fim de nosso singular conceito de mundo. No passado que me coube, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia seu próprio fabricante. Também eram freqüentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse de dinheiro não trazia maior felicidade nem maior quietude.

-Dinheiro? -repetiu-. Já não há quem padeça de pobreza, que seria insuportável, nem de riqueza, que seria a forma mais incômoda de vulgaridade. Cada qual exerce um ofício.

-Como os rabinos -disse-lhe.

Pareceu não entender e prosseguiu.

-Tampouco há cidades. A julgar pelas ruínas de Bahía Blanca, que tive a curiosidade de explorar, não perdemos muito. Já que não há posses, não há heranças. Quando o homem amadurece aos cem anos, está pronto para enfrentar a si mesmo e sua solidão. Já engendrou um filho.

-Um filho? -perguntei.

-Sim. Um só. Não convém fomentar o gênero humano. Há quem pense que é um órgão da divindade para ter consciência do universo, mas ninguém sabe ao certo se tal divindade existe. Creio que agora se discutem as vantagens e desvantagens de um suicídio gradual ou simultâneo de todos os homens do mundo. Mas voltemos ao assunto.

Assenti.

-Aos cem anos, o indivíduo pode prescindir do amor e da amizade. Os males e a morte involuntária não o ameaçam. Exerce alguma das artes, a filosofia, a matemática ou joga um xadrez solitário. Quando quer, suicida-se. Dono o homem da sua vida, também o é da sua morte.

-Trata-se de uma citação? -perguntei.

-Certamente. Não nos resta mais que citações. A língua é um sistema de citações.

-E a grande aventura de meu tempo, as viagens espaciais? -disse-lhe.

-Há séculos renunciamos a estes traslados, que foram certamente admiráveis. Nunca pudemos fugir do aqui e agora.

Com um sorriso acrescentou:

-Afinal, toda viagem é espacial. Ir de um planeta a outro é como ir à granja em frente. Quando o senhor entrou neste quarto, estava fazendo uma viagem espacial.

-É verdade -respondi. Também se falava de substâncias químicas e de animais zoológicos.
O homem agora me dava as costas e olhava pelas vidraças. Lá fora, a planície estava branca de silenciosa neve e de lua.

Atrevi-me a perguntar:

-Ainda há museus e bibliotecas?

-Não. Queremos esquecer o passado, exceto para a composição de elegias. Não há comemorações nem centenários nem efígies de homens mortos. Cada qual deve produzir por sua própria conta as ciências e as artes de que necessita.

-Neste caso, cada qual deve ser seu próprio Bernard Shaw, seu próprio Jesus Cristo e seu próprio Arquimedes.

Assentiu sem uma palavra. Inquiri:

-O que aconteceu com os governos?

-Segundo a tradição, foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham tarifas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta os acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e suas efígies. Os políticos tiveram que buscar trabalhos honestos; alguns foram bons comediantes ou bons curandeiros. A realidade sem dúvida deve ter sido mais complexa que este resumo.

Mudou de tom e disse:

-Construí esta casa, que é igual a todas as outras. Fiz estes móveis e estes utensílios. Trabalhei o campo que outros, cuja cara não vi, trabalharão melhor que eu. Posso te mostrar algumas coisas.

Segui-o a uma peça contíngua. Acendeu uma lâmpada, que também pendia do forro. Em um canto, vi uma harpa de poucas cordas. Nas paredes havia telas retangulares onde predominavam os tons da cor amarela. Não pareciam obra de uma mesma mão.

-Esta é minha obra -declarou.

Examinei as telas e me detive diante da menor delas, que figurava ou sugeria um pôr-do-sol e que encerrava algo infinito.

-Se te agradou, podes levá-la, como uma lembrança de um amigo futuro -disse com palavra tranquila. Agradeci, mas outras telas me inquietaram. Não direi que estavam em branco, mas quase em branco.

-Estão pintadas com cores que teus olhos antigos não podem ver.

As delicadas mãos tocaram as cordas da harpa e mal pude escutar um que outro som. Foi então que se ouviram as batidas.

Uma mulher alta e três ou quatro homens entraram na casa. Poderia dizer que eram irmãos ou que o tempo os havia igualado. Meu anfitrião falou primeiro com a mulher.

-Sabia que esta noite não faltarias. Tens visto a Nils?

-Às vezes. Continua sempre entregue à pintura.

-Esperemos que com melhor fortuna que seu pai.

Manuscritos, quadros, móveis, utensílios; não deixamos nada na casa.

A mulher trabalhou tal como os homens. Envergonhei-me de minha fraqueza, que quase não me permitia ajudá-los. Ninguém fechou a porta e saímos, carregados com as coisas. Notei que o teto era de duas águas. Depois de quinze minutos caminhando, dobramos à esquerda. Ao fundo divisei um tipo de torre, coroada por uma cúpula.

-É o crematório -alguém disse-. Dentro está a câmara letal. Dizem que foi inventada por um filantropo cujo nome, creio, era Adolf Hitler.

O guardião, cuja estatura não me assombrou, abriu o portão.

Meu hóspede sussurou umas palavras. Antes de entrar no recinto se despediu com um gesto.

-A neve continuará-anunciou a mulher.

Em meu escritório da rua México guardo a tela que alguém pintará, daqui a milhares de anos, com materiais hoje dispersos pelo planeta.


*Nota do Tradutor: pânico se refere a Pan, divindade grega dos bosques e da vida selvagem. Neste caso, o adjetivo pânico não diz respeito ao pavor, mas à característica rústica e cheia de vida das planícies que ligam o Uruguai ao Rio Grande do Sul, os pampas. O autor das linhas, Emilio Oribe, é um poeta, ensaísta e filósofo uruguaio.

**Do latim, “sob o aspecto da eternidade”, ver as coisas desde uma perspectiva atemporal, objetiva, daquilo que é universal e eternamente verdadeiro.

¿Qué es la Izquierda? (fragmento traducido)

Fragmento de El Imbécil Colectivo II (1998), libro de Olavo de Carvalho, filósofo y escritor brasileño.

olavo-de-carvalhoLa izquierda se define objetivamente por las siguientes creencias:
1 – El presente, aunque sea mejor que el pasado, es siempre intolerable, porque desciende de él;
2 – El estado actual de las cosas tiene autores y culpables, quienes se pueden ubicar y nombrar, colectiva e individualmente;
3 – Un futuro hipotético puede ser el juez del presente;
4 – Aquellos quienes adhieren a la idea de este futuro dejan de ser todos, ipso facto, autores y culpados del estado presente de cosas para volverse jueces de él.

Nunca hubo en el mundo una izquierda que no compartiera de estos supuestos generales. Ser de izquierdas consiste, en suma, en vivir de un crédito moral que jamás se puede rescatar, de modo que, cuando llega el futuro, éste debe ser explicado como efecto del pasado y su deuda es automáticamente transferida a la cuenta de “la derecha”, aunque esto implique usar el término para designar precisamente a aquellos quienes hasta ayer eran la izquierda.

O Estado Docente (trecho traduzido)

Trecho extraído de O Estado Docente (1884), artigo de Miguel Antonio Caro, presidente conservador colombiano de 1892 a 1898.

miguel_antonio_caro

O Estado começa fazendo-se definidor: este é o primeiro passo no caminho do abuso. Logo se faz professor, ensina o que define e dá aulas por sua própria conta. Dispondo dos grandes recursos formados com as contribuições públicas, oferece aulas gratuitas, mata a concorrência e se ergue com o monopólio do ensino. Não satisfeito com isso, decreta como obrigatória a sua instrução. O Estado, armado com a espada da lei, impõe suas opiniões desautorizadas e caprichosas como o maometano sua doutrina com o fio do alfange. Tal é a última etapa desta usurpação intelectual que vemos se desenvolver no Estado moderno, como gigantesca ameaça à toda honrada liberdade e que mais cresce à medida que mais se seculariza o próprio Estado e mais independência este ostenta.

Nacido para Mandar (fragmento traducido)

Fragmento de Teoría y Práctica del Comercio: preceptos prácticos (1986), recolección de artículos de Fernando Pessoa sobre la teoría administrativa, originalmente publicados en 1926. Fernando Pessoa es uno de los más importantes poetas y escritores en lengua portuguesa.

Continuar lendo Nacido para Mandar (fragmento traducido)